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Juntos na vida e nos estudos: a história do casal que conquistou a aprovação no ENAM

Valéria e Jeferson são servidores do TRT, estudam juntos e compartilham os desafios de conciliar a rotina pesada e a preparação para a magistratura

Para quem nunca teve a pretensão de ser juíza, Valéria Cecilia de Moraes Sita Bertolazzi, de 38 anos, acaba de dar um passo gigante nessa direção. Técnica judiciária do TRT-15 desde 2017, ela foi aprovada no Exame Nacional da Magistratura (ENAM 2026.1), o primeiro que prestou.

Ao lado dela, o companheiro Jeferson Jeske, 45 anos, analista judiciário do TRT-15 permutado para o TRT-23, também passou. E, como ela mesma diz, foi depois de “duas bolas na trave” (55 pontos em dois exames anteriores) que ele finalmente conseguiu os 66 acertos que o habilitaram.

O casal, que se conheceu no trabalho em 2023 e hoje divide não apenas a vida, mas também os cadernos, as videoaulas e os finais de semana inteiros de estudo, fala sobre essa jornada. E a história deles é daquelas que inspiram, e mostram que, no universo dos concursos, persistência, método e, principalmente, apoio mútuo fazem toda a diferença.

Uma trajetória que começou “sem saber o que estava fazendo”

Valéria é filha de advogada trabalhista, mas garante: “nunca tive a pretensão de ser juíza”. Aluna de escola pública, ela entrou na faculdade de Direito meio sem saber ao certo o que queria. Fez intercâmbio, morou nos Estados Unidos e, em 2012, viu o edital do TRT RJ. Fez a prova “sem saber absolutamente nada” e ficou na posição 14 mil. Mas aquilo foi o estopim.

“Naquele ano de 2013 tive a sorte de ter vários concursos de TRT”, lembra. Estudou cerca de quatro meses para o TRT de Campinas, passou e três anos depois, já vivendo nos EUA, recebeu o e-mail de nomeação. Voltou, assumiu como técnica judiciária e, desde então, trabalha com recurso de revista, área pela qual se apaixonou.

Jeferson, por sua vez, começou cedo. Aos 17 anos, já tentava concursos para escolas militares. O primeiro emprego público veio no Censo Demográfico de 2000, pelo IBGE, onde ficou em primeiro lugar. Depois vieram a Câmara de Vereadores de Santa Rosa (RS), a faculdade de Direito e, em 2007, a aprovação para técnico do TRT-23, com nomeação só em 2010.

Nesse meio-tempo, foi procurador municipal. “Foi um momento que conheci a virtude de trabalhar em um cargo que permite ter independência”, conta.

A paixão pela área trabalhista veio com a prática. “Sempre me entendi vocacionado para essa área da magistratura”, diz Jeferson, que há anos atua como assistente de desembargador.

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O luto, o diagnóstico e a virada de chave

Em 2024, Valéria viveu um ano difícil. Perdeu o pai de forma repentina e entrou numa fase depressiva profunda. Foi nesse contexto que veio o diagnóstico de autismo (ela já tinha TDAH), com altas habilidades e hiperfoco. “Eu achava que não era capaz de fazer as coisas”, conta.

O incentivo para estudar veio de Jeferson, que já estava focado no ENAM. “Eu não tinha vontade de sair, cancelava todos os planos. Estudar foi uma boa coisa”, diz. Eles começaram a estudar juntos, e ela foi fazendo provas de analista, passou em todas que prestou, incluindo o TRT do Rio, onde ficou em quinto lugar na lista PCD.

Mas o ENAM era outra história. “Eu olhava a carreira fim como uma coisa muito distante da minha capacidade”, admite. Foi quando conheceu o Magistrar, por meio de um grupo de estudos, e assistiu a uma aula de direitos humanos com o professor Alexandre Piovesan.

A virada com o Magistrar e a aprovação no ENAM

Jeferson já havia feito quatro edições do ENAM antes do quinto exame, em junho deste ano. Foram 48 acertos no primeiro, 55 no segundo e no terceiro, e 52 no quarto. “Fiquei na trave”, resume. Faltava um ponto para chegar aos 70% (56 questões).

Foi quando Valéria sugeriu: “Estamos perdidos, vamos fazer uma mentoria”. Entraram no Magistrar, conheceram o Cérebro, e mudaram a metodologia. “Depois que entrou o sistema do Cérebro, deu para sentir a preocupação em resgatar a resiliência dos candidatos”, avalia Jeferson.

No quinto ENAM, ele fez 66 pontos (82,5%). Valéria, em sua primeira tentativa, acertou 48 (60%), o suficiente para a habilitação, já que, por ser autista, a nota de corte foi de 40 pontos. “Graças a Deus e ao Magistrar a gente conseguiu superar esse obstáculo”, celebram.

O estudo a dois: “não temos vida social, mas temos um ao outro”

Valéria e Jeferson estudam juntos, mas cada um com seu método. Ele é organizado, tem cadernos estruturados e prefere leitura. Ela precisa de videoaulas, esquemas, IA para montar entendimentos e, acima de tudo, de aulas ao vivo.

“Eu gosto de cobrança”, diz Valéria, que já usou períodos de férias para estudar, 60 dias acumulados, no ano passado, foram inteiramente dedicados à preparação. Jeferson também tirou 15 dias de férias antes da prova.

A rotina é pesada: finais de semana inteiros de estudo, oito horas por dia ou mais. “A gente não consegue ter uma vida social normal”, admitem. “Mesmo quando você está relaxando, assistindo uma série, tem aquela culpa de não estar estudando.”

Mas estudar juntos também tem seu lado positivo. “Ajuda bastante. É motivador, mesmo sendo estressante e cansativo”, conta Valéria. “Quando um está para baixo, o outro puxa.”

A acessibilidade na prova oral: um novo horizonte

Valéria sempre disse que, mesmo que passasse nas três primeiras fases da magistratura, jamais faria a prova oral. “Só de pensar me dá pavor”, confessa. Mas uma resolução do CNJ trouxe a possibilidade de acessibilidade para candidatos autistas, como sala com menos iluminação, ambiente mais confortável e adaptações.

“Isso tirou um pouco do peso”, diz. “Talvez eu possa realmente ser magistrada do trabalho ou procuradora do Ministério Público do Trabalho e enfrentar uma prova oral com acessibilidade.” Ela já avisou ao Alexandre: “Se um dia eu passar nas primeiras fases, vou precisar que ele esteja lá comigo.”

O que vem agora?

Com a provação no ENAM, o foco agora é a magistratura do trabalho e o Ministério Público do Trabalho (MPT). “Agora é que vai começar a briga de verdade”, brinca Valéria.

Jeferson, que sempre sonhou em ser juiz, respira aliviado: “Com essas toneladas a menos que eu carregava nas costas, ficou bem mais tranquilo para realmente voltar aos estudos pensando no cargo que sonho.”

A história dos dois mostra que grandes aprovações nem sempre são construídas apenas com horas de estudo. Muitas vezes, elas nascem da soma entre persistência, apoio mútuo e a capacidade de continuar acreditando, mesmo depois de sucessivas frustrações.

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