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Da periferia ao ENAM: a jornada de uma mulher negra que nunca desistiu da magistratura

Assessora do MP PR, mãe, avó e mulher negra, aluna do Magistrar transforma uma trajetória marcada por desafios em um novo passo rumo ao sonho da magistratura

Aos 54 anos, Aparecida Suely Barboza acaba de conquistar uma aprovação que representa muito mais do que um resultado em uma prova. Assessora comissionada do Ministério Público do Paraná (MP PR), mãe de cinco filhos e avó de seis netos, ela foi habilitada no Exame Nacional da Magistratura (ENAM 2026.1) e agora segue firme na preparação para realizar um antigo sonho: a magistratura.

A conquista é resultado de uma trajetória marcada por recomeços, perseverança e pelo acesso à educação. Aparecida retomou os estudos aos 33 anos, quando estava grávida de seu quinto filho. Na época, trabalhava durante o dia como promotora de vendas e, à noite, frequentava um cursinho pré-vestibular em Curitiba.

Sem carro, ela e o marido enfrentavam diariamente o deslocamento de ônibus para as aulas. A rotina terminava por volta da meia-noite, enquanto os filhos ficavam em casa com o apoio de uma vizinha. Pouco depois, era preciso acordar cedo novamente para trabalhar.

Mesmo após o nascimento do filho, João Pedro, ela não desistiu. Ficou afastada por alguns meses, mas retornou às aulas ainda durante o período de amamentação.

Da periferia à faculdade de Direito

A primeira tentativa de ingresso na Universidade Federal do Paraná (UFPR) não resultou na classificação para a segunda fase do vestibular. Ainda assim, a preparação abriu outras portas.

Aparecida conseguiu uma boa nota no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e conquistou uma bolsa pelo ProUni para cursar Direito em uma instituição privada. Formou-se em 2010 e colou grau em 2011.

Durante a graduação, também participou de iniciação científica e conquistou uma bolsa de pós-graduação. Depois de formada, concluiu especialização em Direito Constitucional pela Academia Brasileira de Direito Constitucional.

A trajetória profissional também avançou. Depois de atuar por pouco tempo como advogada e como advogada voluntária em um projeto realizado em parceria entre o Ministério Público e o Tribunal de Justiça, Aparecida foi convidada a atuar como assessora jurídica no Ministério Público do Paraná.

Ela está no MP PR desde outubro de 2011, onde permanece como assessora comissionada.

Concursos públicos marcaram o retorno aos estudos

A relação com os concursos públicos também começou antes da preparação para a magistratura. Aparecida realizou algumas provas e chegou a ser aprovada em concursos para cargos técnicos, mas não chegou a ser convocada.

Por circunstâncias pessoais e familiares, acabou interrompendo os estudos por um período.

O retorno aconteceu em 2024. A partir daí, voltou a prestar concursos e conquistou aprovações no TSE e no TRF4, além de ter participado do Concurso Nacional Unificado (CNU).

Foi nesse processo de retomada que um antigo sonho voltou a ocupar espaço em seus planos: a magistratura.

“A magistratura era um sonho adormecido, sabe aqueles que ficam guardadinhos dentro da gente e que você até esquece que ele está lá. Na verdade, a gente pensa que esquece, mas a gente não esquece”.

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ENAM 2026.1: aprovação que veio antes do esperado

Quando decidiu retomar a preparação para a magistratura, Aparecida estabeleceu uma meta: conseguir a habilitação no segundo ENAM de 2026.

Ela conheceu o Magistrar no início deste ano, por indicação de uma amiga. Primeiro, acompanhou as leituras de Lei Seca e conteúdos disponibilizados pela plataforma. Depois, passou a assistir às aulas no YouTube.

Foi durante uma dessas aulas que conheceu o Cérebro, método de estudos do Magistrar.

“Entrei no YouTube, vi algumas aulas, vi o professor Alexandre, e quando ele apresentou o Cérebro, eu fiquei muito encantada”, lembra.

Ela chamou o marido para mostrar: “Veja isso, que incrível! Gente, isso é sensacional, eu acho que com esse método eu vou ter mais chance”.

O marido, que também é servidor público de carreira do Ministério Público do Paraná, presenteou Suely com o curso. Mesmo com pouco tempo até a prova, ela passou a utilizar o método, resolver exercícios, acompanhar as aulas e intensificar a preparação.

A ideia inicial, porém, era fazer o ENAM 2026.1 principalmente para conhecer a prova e entender o próprio desempenho. A meta de habilitação estava projetada para a edição seguinte.

O resultado surpreendeu.

Aparecida conseguiu atingir a pontuação necessária e foi habilitada no ENAM 2026.1 já na primeira tentativa.

“Eu fiquei muito feliz, porque era a primeira vez que eu fazia uma prova do nível do ENAM. Era uma prova que exigia bastante, mas fez toda a diferença para mim assistir às aulas e fazer a revisão de véspera”, afirma.

Revisão de véspera fez diferença na prova

A candidata destaca especialmente o impacto da revisão de véspera em seu desempenho.

Segundo ela, o conteúdo revisado pouco antes da prova contribuiu diretamente para acertos em disciplinas importantes. Em Direito Empresarial, por exemplo, ela afirma ter acertado todas as questões da matéria.

Em Direito Penal, foram oito acertos entre dez questões.

As questões de Direito Empresarial eu acertei todas por conta das revisões de véspera. De Direito Penal, eram dez questões e eu acertei oito por conta das revisões”, relata.

A aprovação trouxe uma consequência imediata: o sonho que antes parecia distante passou a ganhar um planejamento concreto.

Depois da habilitação, Aparecida Suely começou a se preparar para a magistratura do trabalho, área que escolheu para dar continuidade à sua trajetória.

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Uma perda que mudou os planos, mas não o sonho

Poucas semanas depois da habilitação no ENAM, a vida de Aparecida foi atravessada por uma tragédia familiar.

Em 11 de julho, um telefonema às 7h da manhã mudou os planos que ela tinha para aquele sábado. Seu irmão mais novo, o caçula de seis irmãos, foi vítima de homicídio.

A perda interrompeu momentaneamente sua rotina de estudos e trouxe um período de profunda dor para toda a família. Ela conta que, como irmã mais velha, passou a exercer também um papel de suporte para a mãe e os demais irmãos.

Ainda enfrentando o luto, ela tenta retomar gradualmente a preparação.

É difícil mesmo, mas eu estou tentando, estou retomando aos poucos. E é muito importante saber que as aulas estão lá, que o professor é excelente, que os meus colegas da mentoria são excelentes”, afirma.

Nesse momento, porém, o sonho da magistratura ganhou um significado ainda mais profundo.

Segundo Aparecida Suely, seu irmão tinha grande admiração por ela e fazia questão de contar para outras pessoas que a irmã era formada em Direito, havia passado na OAB e que poderia se tornar juíza.

“Agora, mais do que um sonho pessoal, é uma questão de honra para eu honrar o meu irmão. Eu quero honrá-lo e eu vou honrá-lo com a minha aprovação na magistratura”, afirma.

Educação como transformação para toda a família

A história de Suely também é marcada pela percepção de que a educação não transforma apenas quem consegue chegar à universidade.

Ela conta que é a única entre os irmãos a ter formação superior e destaca como sua trajetória acabou influenciando filhos, sobrinhos e outras pessoas da família.

Hoje, seus filhos seguem diferentes caminhos profissionais e acadêmicos. Há um engenheiro mecânico, uma filha formada em Relações Públicas, outra que cursa Psicologia e o filho mais novo, João Pedro, estudante da Universidade Federal do Paraná.

Para Aparecida Suely, ocupar esses espaços também significa abrir caminhos para as próximas gerações.

“Você abre as portas para que outros venham com você, para que outros te sigam. Você é referência para os mais novos e exemplo também para os mais velhos, de perseverança e determinação”, afirma.

Uma história de recomeços

Antes de chegar à universidade, Aparecida Suely viveu dificuldades que fazem parte da realidade de muitas famílias brasileiras.

Mulher negra e periférica, ela relata que já passou por períodos em que a família não tinha comida, casa, cama ou roupas em condições adequadas.

Por isso, a conquista da graduação, a aprovação na OAB, a carreira no Ministério Público e, agora, a habilitação no ENAM representam etapas de uma trajetória construída com oportunidades, apoio e muita perseverança.

Ela faz questão de reconhecer o papel das políticas públicas de acesso à educação em sua trajetória, desde a bolsa para o cursinho pré-vestibular até o ProUni.

Para Suely, permitir que pessoas em situações de vulnerabilidade tenham acesso à educação produz efeitos que ultrapassam a vida individual.

“Quando nos é concedida a possibilidade de acessar a educação, isso transforma vidas, não só daquele que é beneficiado diretamente, mas de todos que estão à sua volta”, destaca.

“O Magistrar foi um divisor de águas”

Ao falar sobre a preparação para o ENAM, Aparecida Suely também destaca a importância do Magistrar em sua trajetória recente.

Para ela, o método de estudos, as aulas, as revisões e as orientações contribuíram para organizar uma preparação que, até então, estava sem um direcionamento claro.

Conhecer o Magistrar foi um divisor de águas na minha vida”, afirma.

Agora, já habilitada no ENAM, ela segue na mentoria e na preparação para os concursos da magistratura, especialmente para a Justiça do Trabalho.

O próximo objetivo é transformar a habilitação em uma aprovação e, assim, realizar um sonho que permaneceu adormecido por anos, mas nunca deixou de existir.

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“É possível, mas não é fácil”

Ao olhar para a própria trajetória, Suely deixa uma mensagem para quem pensa em retomar os estudos depois de muitos anos ou acredita que já passou da hora de começar.

Para ela, não existe transformação sem educação, mas também não existe caminho sem perseverança, apoio e disposição para recomeçar.

“Não há outro modo de transformar a nossa vida e a vida dos nossos familiares a não ser por meio da educação. A gente precisa ter fé, precisa acreditar, precisa perseverar e estudar, porque é a educação que transforma”, afirma.

Aos 54 anos, depois de começar a estudar novamente aos 33, conciliar trabalho, maternidade, universidade e diferentes desafios pessoais, Aparecida Suely mostra que a trajetória até a magistratura pode começar em diferentes momentos da vida.

Agora, a habilitação no ENAM 2026.1 representa não o ponto de chegada, mas mais um passo em uma caminhada que ganhou um novo propósito.

Eu quero honrar o meu irmão e para que ele continue orgulhoso de mim”, resume.

E é com esse propósito que Aparecida Suely Barboza segue estudando para transformar o sonho adormecido da magistratura em realidade.

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